segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Manifestações no Brasil em 2013
Enxergo a visão comum sobre as manifestações desse ano no Brasil como superficiais, e discordo delas. Essas manifestações aliam dois pontos, para mim: a situação e visão da classe média na economia e a incompetência política. O primeiro ponto: a classe média acendente tem ganhado poder aquisitivo significativamente nos últimos anos, e com a queda no crescimento do país, parou de fazê-lo; a classe média"antiga", por outro lado, perdeu seu status e poder, e ainda sentiu a estrutura em que se baseada abalada pelos pobres acendentes. Ambas, na verdade, são "vítimas" da economia. Aliás, ambas estão descontentes por questões econômicas. Pra mim, não tem nada que ver com a educação, com a saúde, com nada disso. São apenas justificativas ideológicas ou a ilusão de que é por causa disso que a situação está ruim, enquanto a raiz do problema é do mercado e do governo (falarei da atuação ideológica ao final da publicação). O suposto aumento da escolaridade ou da busca e reivindicação pela educação não é, na verdade, busca pela educação, sendo essa afirmação uma hipostasia, mas busca por atender ao mercado. Para a população das massas, pouco importa a qualidade da formação, mas, de novo, o retorno financeiro - se vê a massificação da formação intelectual, que passa da formação de cientistas para a formação de tecnólogos medíocres, até mesmo nas universidades, nos cursos superiores. Outro ponto chave no entendimento dessa questão são as greves nacionais ou estaduais de professores, sempre buscando o aumento salarial, mas nunca a reforma do currículo escolar, do conteúdo. Digo isso sem precisar argumentar demais: nunca houve mobilização no Brasil para protestar em favor da saúde, da educação ou de coisa do tipo sem que houvesse problema econômico, conditio sine qua non para as revoltas das massas. Aliás, não havia grande descontentamento com o governo Dilma, falando mais recentemente. As "revoltas" populares acontecem quando há problemas na economia. Vide 1789, 1889, 1930, 1964 e outras datas brasileiras famosas. No mundo, basta olhar a Grécia, a Espanha, a Revolução Francesa, a Independência das Treze Colônias, etc. Então, enquanto povo, a classe média não tem base e preocupação senão com a riqueza - um processo fruto da fetichização da mercadoria e da reificação, da venda da força de trabalho, da vida, como fala Marx. Daí vem a burrice do PT, que não soube manejar a população e a política, não soube criar e manter apoio popular senão pela situação financeira, e cedeu, burramente, a oportunismos. Não posso deixar de citar Maquiavel, cujo livro O Príncipe terminei de ler há poucos dias, e cujas palavras seguintes o Estado tem seguido ipsis litteris: "[...] restringindo-me a termos mais específicos, digo como hoje se vê esse príncipe rejubilar e amanhã desmoronar, sem que o vejamos mudar minimamente de natureza ou qualidade; o que nasce antes de tudo - suponho - dos motivos que já foram longamente expostos, ou seja: o príncipe que se apoia inteiro na fortuna se arruína tão logo ela varia. Creio ainda que é feliz quem [príncipe] emparelha seu modo de proceder com a qualidade dos tempos e, analogamente, que seja infeliz quem age em desacordo com os tempos.". O despenco de 70% para 30% de aprovação mostra isso muito claramente. Os que sobraram, ou têm outros vínculos com a presidência atual ou não foram afetados pela alta na inflação e pelo baixo crescimento do PIB. Nisso, o PT falhou, pois ao mesmo tempo que foi economicamente irresponsável vendendo títulos da dívida externa durante o governo Lula (pelo que ouvi do Gabriel Becker), não tem um plano eficaz para resolver o que acontece agora. Na crise econômica de 2008, Lula aqueceu o mercado baixando juros, dando crédito, retirando o IPI e etc. Só que, não sei porquê, parece que não está sendo tão útil quanto antes. O partido falhou, ainda, em tentar entrar num lado da política que não é dele. Se vincular à elite burguesa e a satisfazer o mercado, promover e trabalhar para a iniciativa privada, e ainda se meter em esquemas de desvio de dinheiro e superfaturamento são características e bandeiras do PSDB e turma, não da "esquerda" brasileira. Ou seja, o PT quase completamente deixou de lado seu apoio não-financeiro para se ligar ao financeiro, carregando e propagandeando a bandeira do país emergente, mas deixando de lado as outras. A aristocracia operária se meteu na área da burguesia, num ato de idiotice, achando que conseguiria o comando, a voz e poder por aí - tentou entrar no caminho da direita. Ainda, como disse Maquiavel: "Aquele que chega ao principado com a ajuda dos poderosos se mantém com mais dificuldade no poder do que que se torna príncipe com o apoio popular, porque está cercado de homens que se creem seus iguais e por isso não pode comandá-los nem governá-los como quiser. Mas quem chega ao principado pelo favor do povo se encontra só, tendo à sua volta ninguém ou pouquíssimos que não estejam prontos a obedecer. Além disso, não é possível satisfazer os poderosos com honestidade e sem prejudicar os outros, mas, ao povo, sim: porque as metas do povo são mais honestas que as dos poderosos, pois estes querem oprimir, e aquele, não ser oprimido. De resto, um príncipe nunca poderá estar seguro se tiver contra si a inimizade dos homens do povo, que são muitos; mas pode estar seguro se tiver contra si os poderosos, por serem poucos. O pior que um príncipe pode esperar de um povo inimigo é ser abandonado por ele; por outro lado, deve não só temer o abandono por parte dos poderosos hostis, mas também ser atacado por eles - os quais, sendo mais previdentes e astuciosos, sempre agem a tempo de salvaguardar-se e buscam agradar a quem esperam que vença. Por fim, um príncipe está obrigado a viver sempre com o mesmo povo [...]". Nesse trecho, vejo a atuação do governo, e no meio dele, a direita golpista como os poderosos hostis buscando agradar a quem esperam que vença para atacar e tomar o poder. Com a mídia atacando, aumentando e aproveitando-se do que é um "escândalo", o mensalão (55 milhões), como se ele fosse o que não é, como se passasse perto de tantos outros escândalos brasileiros muito maiores, como a Privataria Tucana (100 bilhões), Banestado (42 bilhões), o desvio recente do Aécio Neves do dinheiro da saúde em Minas Gerais (4,3 bilhões), tem-se o estopim para essa revolta, cujo caráter já defini no começo do meu comentário. A esquerda pequeno-burguesa, pueril, ainda consegue ver nisso uma oportunidade "revolucionária", confunde com uma participação do movimento operário! As manifestações têm tomado ainda caráter ideológico. Sim, ideológico, que justifica a dominação. Um ataque contra todos e contra ninguém, contra tudo e contra nada, de uma generalização sem proposta. Nas palavras do amigo Paulo de Tarso: "Nessa história toda, dos movimentos populares contra tudo, a grande vencedora foi a oligarquia financeira. Contra a corrupção? Quem é contra essa reivindicação colocada em termos gerais, como está sendo colocada? Por mais educação? Quem é contra essa reivindicação colocada em termos gerais, como está sendo colocada? Por mais saúde? Quem é contra essa reivindicação colocada em termos gerais, como está sendo colocada? Contra os partidos políticos que não nos representam? Quem é contra essa reivindicação colocada em termos gerais, como está sendo colocada? São reivindicações contra as manifestações deturpadas de um sistema que nos oprime. Vou repetir. Reivindicações contra a manifestação e não contra a origem do que nos oprime. Na santa ignorância política, como não têm educação, não se voltam contra a fonte e sim apenas e tão somente contra a manifestação daquela fonte. A fonte de tudo isso, um sistema de produção da vida mediante o mercado, é tomada como sagrada e imutável. Bom, esse rolo todo diz respeito principalmente ao Lula, a Dilma, ao PT, ao FHC, ao Aécio, ao PSDB e aos respectivos partidos e personalidades satélites. Quero que todos vocês se explodam. Esse é um problema para o campo burguês. Não faço parte da esquerda pueril que delira estar apoiando uma revolta popular e vendo nisso um começo de mudança importante.". Essa última, a esquerda pueril e burguesa, é de visão sociológica e pseudocientífica, ou seja, analisa a semelhança e a superfície, tem olhar, não se aprofunda (importante ressaltar que não estou, com o termo burguês, falando de poder aquisitivo). Ora, de um lado a classe média economicamente descontente, apoiando medidas fascistas, antidemocráticas, e de outro a esquerda infantil e burra - mas ambas cometem a burrice de se voltar contra as manifestações dos problemas da mercantilização da vida, da alienação provocada pelo mercado, e não contra a fonte do problema. Neste processo, se reivindica o interesse universal para justificar o particular. No capitalismo, nas palavras de Istvan Meszárós: "[..]a "parcialidade" e a "universalidade", em sua oposição recíproca, são duas facetas do mesmo estado alienado de coisas. A parcialidade egoísta deve ser elevada à "universalidade" para a sua realização: o dinamismo socioeconômico subjacente é ao mesmo tempo "autocentrado" e "dirigido para fora", "nacionalista" e "cosmopolita", "protecionista-isolacionista" e "imperialista". É por isso que não pode haver lugar para a universalidade autêntica, mas apenas para a falsa universalização da mais crua parcialidade, juntamente com um postulado ilusório, teórico-abstrato, da universalidade como a negação - meramente ideológica - da parcialidade efetiva, predominante na prática. [...] [é] a parcialidade transformada em universalidade operativa, no princípio organizador fundamental da sociedade em questão.". Cabe, aqui, uma citação do poeta grego Homero: "cada um faz a lei para seus filhos e suas mulheres". Assim, negando toda a crítica marxista, essa defendida e magnificamente analisada por Meszárós, a crítica sociológica ao capitalismo, por mais estranho que possa parecer, mantem-se na parcialidade capitalista, fragmentária, numa crítica utópica da alienação. Cria correntes humanistas, correntes cristãs do (pseudo) socialismo, que atribuem ao dever moral, à dívida com o criador ou ainda a direitos ontológicos do ser humano a caridade que se apresenta como socialismo e seu comportamento pequeno-burguês cristão, da moral escrava, como diz Nietzsche. A ideologia dominante nesse movimento, é por fim, dividida em duas correntes: a da caridade que se apresenta como socialismo, do protesto pelo protesto, do politicamente correto, da confusão da crítica ao capitalismo com a crítica aos ricos e dó dos pobres, e uma outra, de raciocínio circular e superficial sendo elogiada pelos que se dizem intelectuais defensores do interesse universal, dos "intelectuais" da classe média, influenciados pela direita, buscando seus interesse financeiros e muitas vezes fascistas, anti-partidários, moralistas, pseudocientíficos, que golpeiam, com mediocridade, os problemas que incentivam. Enquanto as duas não levam a lugar algum, abrem espaço para oportunismos baratos, golpismos, que percebi claramente quando Paulo Skef, chefe da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), se reuniu com o alto escalão militar e na associação citada por um tio entre notícias dos protestos e logo após propagandas do PSDB no estado de São Paulo. Sendo ambas acríticas, nenhuma delas, portanto, representa um processo importante. Nenhuma delas soluciona nossos problemas.
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