segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Análise a respeito de "Viagens na minha terra", de Almeida Garrett

Almeida Garrett, o autor, é um rousseauniano de primeira classe. Teísta, defensor do bom selvagem, idealista e gênio, grande intelectual da esquerda burguesa. Ao contrário do que pensam os incultos, em boa parte (esmagadora maioria) negação do meu aprendizado marxista e materialista. Não que isso o desmereça - nem de longe -, é na verdade um elogio, considerando a data do livro (1843). É um autor muito engraçado, que ao que parece costuma caçoar dos intelectuais e moralistas de sua época, do romantismo e da sociedade. Quero citar um trecho do texto, tendo em mente o significado das palavras conforme a visão do autor - note-se que "materialismo", ao contrário da utilização "filosófica" da palavra, se refere, como utilizada hoje pela maioria das pessoas, ao valor excessivo dado à propriedade privada e ao lucro:

"
Vou desapontar o leitor benévolo; vou perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros capítulos desta interessante viagem.
Pois que se esperava ele de mim agora, de mim que ousei declarar-me escritor nessas eras de romantismo, século das fortes sensações, das descrições a traços largos e incisivos, que se entalham na alma e entram com sangue no coração?
No fim do capítulo precedente, paramos à porta de uma estalagem. Que estalagem deve ser esta, hoje, no ano de 1843, às barbas de Vítor Hugo, com o doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os Mistérios de Paris nas mãos de todo o mundo?
Há paladar que suporte hoje a clássica posada do Cervantes, com o seu mesonero gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisível rei do século, aquele por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e aferem o justo! Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da época.

Eu coroarei de trevo a minha espada,
De cenouras, luzerna e beterraba
Para cantar Harmódios e Aristógitons
Que do tirano jugo vos livraram
Da ciência velha, inútil, carunchosa,
Que elevava da terra, erguia, alçava
O que no homem há de Ser divino,
E para os grandes feitos e virtudes
Lhe despegava o espírito da carne...

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra; macadamizai estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Ícaro para andar, a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro - seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo, a nação mais feliz não é a mais rica. Logo, o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...

There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your phylosophy

A ciência deste século é uma grandíssima tola.
E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos néscios.

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Vamos à descrição da estalagem. Não pode ser clássica; assoviam-lhe todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem literatura cava e funda desde a porta do Marrare até o café de Moscou.
Mas aqui é que me aparece uma incoerência inexplicável. A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de fato; Quixote, rei de direito.
Pois é assim, e explica-se. - É a literatura que é uma hipócrita; tem religião nos versos, caridade nos romances, fé nos artigos de jornal - como os que dão esmolas para pôr no diário; que amparam órfãs na Gazeta, e sustentam viúvas nos cartazes do teatro.
E falam no Evangelho! Deve ser por escárnio. Se o leem, hão de ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
Vamos à descrição da estalagem; e acabemos com tanta digressão."


Daí se pode perceber seu rousseaunianismo. Sua crítica ao progresso como um todo, sua exaltação da vida naturalística e seu idealismo teísta. Numa análise minha, aprendiz de marxista, a literatura enquanto incoerente com a realidade social nada mais é que fruto da moral capitalista e do idealismo, da degradação e da tentativa de fuga da realidade. A crítica à mera hipocrisia é fragmentária, pois não percebe e não mostra o contexto material que leva a ela. E simplesmente critica alguém por não seguir o que discursa, não critica o discurso em si. Daí podemos explorar o ponto de vista burguês das causas dos problemas sociais - há muitos que dizem que a realidade imbecil e pobre em que vivemos é fruto do individualismo e da má qualidade da educação, e não o contrário. Isso é a inversão sujeito-predicado idealista e racionalista, que coloca a razão como anterior à matéria, ou seja, a matéria existe porque ela é pensada (em um resumo idiota meu). Na visão materialista, oposta à do autor e à da intelectualidade burguesa, a razão é posterior à matéria, ou seja, o pensamento existe em função da existência da matéria, e não o contrário; ou seja, a má qualidade da educação e o individualismo são frutos da realidade pobre e imbecil, e não o contrário; ou seja, o indivíduo é formado a partir do contexto material e social, e não o contrário. O contrário é a visão idealista e hegeliana, da sociedade formada a partir do indivíduo, da revolução de caráter individual, da do "cada um faz a sua parte", da pequena burguesia.
No fim das contas, além de elogiar o autor, eu queria aproveitar esse trecho do livro para fazer crítica aos pseudointelectuais burgueses, que não enxergam as implicações dos próprios pensamentos. Ora, se a razão precede a matéria, seria o capitalismo, como o autor descreve fragmentadamente, a expressão da razão humana? Os conflitos humanos seriam, então, de natureza, e não formados pelo contexto. Então existe a necessidade do Estado enquanto algodão entre os cristais, como disse Hegel. Essa hipótese é facilmente refutada pela verificação do caráter histórico da razão e dos conflitos. Mas não é essa a minha ideia. Há muita gente que se diz ateia e defende o ponto de vista da formação da sociedade a partir do indivíduo e do que falei logo antes como exemplo, da realidade imbecil e pobre enquanto consequência da má qualidade da educação e da individualidade. Isso é burrice e implica em auto-contradição. Como eu disse, isso é assumir a anterioridade da razão à matéria e do indivíduo e sua razão ao contexto material e social. Isso só pode ser idealista, e como tal, admite a matéria como fruto da razão e o teísmo, a existência de uma origem, e se não estou sendo "burro", da causa e do efeito como explicação da realidade.
Há de se ressaltar outro ponto no pensamento do autor, que em maior (muito maior) inteligência é análogo ao da esquerda hodierna. Esse ponto é aquele da crítica e raiva dos ricos sem considerar a estrutura econômica - de novo. Aquele velho discurso de exaltar a pobreza e condenar a riqueza, acético judaico-cristão, sem entender que tudo isso é parte do sistema e que a pobreza é um problema, e não uma beleza. Também não é entendido que a luta de classes não é pessoal, e que o rico não merece a raiva por ser rico - isso é parte da estrutura do capitalismo. A estrutura é que é o problema. Crítica parcial e imbecil, claro. Confusão da luta de classes com luta entre bem e mal.


De qualquer maneira, achei o livro muito interessante e em muitas partes divertido. Acho que será um grande aprendizado sobre história, linguagem e como fazer críticas cômicas.

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