segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ponto de vista sobre a reforma agrária

Começo com um esclarecimento sobre a minha opção política: comunismo não é a simples distribuição. Tendo isso em mente, digo que não sou partidário dos movimentos de reforma agrária em contexto capitalista e não apoio MST e turma. Não, não apoio. Porque prezo pela prática, pelo material, antes do moral e do ideal. Desse modo, distribuir terras é uma tolice, caso aos moldes da reforma agrária proposta pela esquerda. Antes de tudo, temos que ter produção. O MST é uma prisão do trabalhador à terra sem necessidade. Tenho desprezo por esse movimento. Como pensar numa proposta que antes de analisar o real, a necessidade de produção, defende o ideal pequeno-burguês da igualdade e da simples distribuição? Há problemas na agricultura brasileira? Sim. Quais são eles? Em primeiro lugar, precisamos voltar a agricultura para a necessidade da população. Em segundo, precisamos preservar o meio-ambiente. Em terceiro, cuidar dos direitos de quem trabalha na terra e garantir a preservação da terra (em questão de nutrientes, produtividade, etc). E quanto ao sem-terra? Esse é um pobre que delira, um idealista. É óbvio que é um problema a existência de pessoas sem moradia e sem trabalho, mas não necessariamente precisamos prendê-las à terra, atrapalhando tanto a produtividade quanto, provavelmente, essas pessoas, que poderiam estar trabalhando em qualquer área onde seriam mais úteis. Essas pessoas podem vir à cidade, podem ser oferecidos a elas cursos técnicos, ensino, etc. Baseio-me principalmente em Lenin para escrever isso. Li um artigo dele de 1905, à época da reativação da Duma na Rússia, falando sobre esse assunto. Ele apontava tudo isso que eu disse, e criticava principalmente a prisão à terra. Essa discussão toda é dentro do contexto capitalista. Num contexto comunista ou socialista, penso eu, como o objetivo é a humanidade, temos de produzir para a necessidade humana. Sendo assim, usamos o sistema mais eficiente, independentemente da distribuição da terra, já que não há propriedade privada e essa questão se torna indiferente. Latifúndio ou minifúndio, a divisão da terra, num contexto assim, tanto faz, pois a produção não é uma propriedade e nem tem objetivo mercadológico. A propriedade é um conceito abstrato, uma mera convenção, e como a distribuição está ligada à propriedade, a reforma agrária aos moldes da simples distribuição só é válida no capitalismo. É necessária mudança? Sim, mas não tem nada que ver com o que diz o MST e esses movimentos vulgares que se dizem marxistas. Deve prezar a necessidade humana, a preservação dos biomas e a eficiência/qualidade/produtividade.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Comentário a respeito da vinda dos médicos de Cuba

Não vejo como não perceber que isso é uma guerra política, é questão de ideologia. Falta infraestrutura? Claro! Mas um aparelho de pressão, um termômetro e um medidor de açúcar no sangue já fazem muita diferença, já ouvi de médicos e demais pessoas. A realidade é que os médicos brasileiros não querem atender nesses rincões do interior do Brasil. Como resolver isso? O governo tentou aumentar o tempo de curso por dois anos, em que o estudante atenderia no SUS. Seria uma excelente saída! O que fez o CRM? Negou. Mais uma: os médicos brasileiros, na esmagadora maioria, têm uma formação ridícula, ruim, em universidades de esquina, não sabem atender ninguém, relegam o diagnóstico a máquinas. Houve, há um ou dois anos, uma tentativa de realizar uma prova de nivelamento como a da OAB para o exercício da medicina, e boicotaram! Sim, boicotaram! E agora obrigam os cubanos a passar pelo Revalida. Por quê? Porque a classe médica no Brasil é, em maioria, um bando de filhinhos de papai e patricinhas nojentos, preocupados com dinheiro no bolso, uma elite de merda, mal formada, corrupta. Agora, perceba, preferem que o pobre morra sem atendimento, preferem que os interioranos fiquem sem médicos, do que assumir o recebimento de cubanos, ditos guerrilheiros comunistas (KKKKKKKKKKKKKKK). Os cubanos têm formação melhor que a brasileira. Todos que virão passaram por 12 anos de formação, falam português e 20% fizeram mestrado. Ah, mas o pobre? O pobre que se foda! O pobre é um cidadão de segunda classe! "Nós, os riquinhos, prezamos os "valores universais" e não a prática! Nós vemos, antes de tudo, a "liberdade", a "democracia", prezamos pela qualidade da formação e das condições de trabalho. A prática, a realidade, a verdade que o pobre não tem atendimento? Foda-se!". Diz-se que é um caminho imediatista (KKKKKKKKKKKK), que os médicos brasileiros também querem atender, etc, etc. Mentira. Há cargos vagos no SUS em São Paulo por R$ 30 mil por mês. Mas o pobre, como eu disse, é um cidadão de segunda classe. Ele pode esperar, pode aguardar e se subordinar aos valores universais dos ricos, pois os valores são mais importantes que a prática, kkkkkkkkkkk. A verdade é simples: isso é medo de concorrência e ódio a Cuba. Se há quem queira o serviço, se há quem possa fazê-lo, pronto. Precisamos de médico.

Um adendo: reclama-se da falta de condições, da realidade precária, e até certo ponto é verdade. Mas não podemos esperar o Brasil se tornar um país desenvolvido, o capitalismo se desenvolver em todas as regiõces, para dar atendimento ao povo.

Reflexão sobre o suposto uso de armas químicas na Síria

Hoje, pela manhãzinha, acordei com o meu avô, e como estou com gripe forte, não fui à escola - fiquei aqui com ele, assistindo jornal e conversando sobre política. Eis que começa a passar a notícia sobre o suposto uso de armas químicas na Síria. Segundo o que ouvi, o secretário de Estado dos EUA diz que é certo e inegável (ou algo assim) que o país está usando as tais armas. Eu, como cético, duvidei. Mostrei ao meu avô alguns fatos apontados pelo Domenico Losurdo no livro "A linguagem do Império" sobre as guerras "anti-terroristas" durante as últimas décadas e expliquei que, para mim, aquilo era mais do que motivo para desconfiar do que dizia a imprensa internacional e principalmente o secretário de Estado. Conversa vai, conversa vem, resolvi investigar o que realmente acontece. À época do atentado de Boston, li no site do grupo Anonymous uma matéria expondo indícios de que aquilo era uma farsa. O objetivo, ninguém falou no texto. Entretanto, num outro site, (B'Man's Revolt), vi a explicação para o tal atentado. Segundo o que li, ele seria usado para legitimar a intervenção dos EUA no Oriente Médio através de novas medidas de "segurança" internacionais. À época, Obama se reuniu com Putin para resolver o assunto. Bom, nesse meio, os EUA conduzem uma operação para "pacificar" a região do Oriente Médio, enquanto que em 2011-2012, a Turquia se armou ao norte, perto da Geórgia e da fronteira com a Rússia. Por quê? Simples: a Rússia fornece mais de 50% do gás natural da Europa, e agora, enquanto os EUA cumprem sua missão de "pacificar" o Oriente Médio, Israel e Turquia propõe a construção de um gasoduto em direção à Europa para substituir o fornecimento russo. Diz-se no artigo que, como vários países foram invadidos e a Turquia tem rixas com os países à sua volta, se um conflito surgir na região, a Síria estará sozinha (o governo é opositor de Israel e dos EUA). Esse conflito provavelmente é agora. Então, qual o objetivo de guerrear com o país? Possivelmente, faz parte do plano de construção do imensamente lucrativo gasoduto, que passará por Israel, Turquia e Chipre (que recebeu um "incentivo" financeiro gigantesco nesse ano para que a obra passe nas suas águas). Seria, então, o suposto uso de armas químicas uma legitimação para que os EUA invadam o país e a construção do gasoduto seja efetivada, sendo o motivo econômico? Desconfio que sim.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Pequeno comentário sobre religião e verdade individual

A visão religiosa é uma clara manifestação da luta de classes e um instrumento de dominação da elite. Nessa atual onda de politicamente corretos, um aspecto dessa instituição se ressalta: a verdade individual ou crença individual. Ignorando o compromisso com a verdade, se prega que uma pessoa tem direito de acreditar no que bem entender. Não discordo, mas repudio o uso disso como arma política.

Explico: várias hipóteses já foram confirmadas cientificamente, ao exemplo da evolução das espécies. Entretanto, a religião não aceita esse fato. Os cristãos evangélicos, por exemplo, chegam a nem mesmo aceitar o ensino do conteúdo nas escolas. Para mim, o Estado, a educação e tudo o mais que não seja de interesse somente particular deve-se preocupar com a verdade e nada mais. Por isso, ao meu ver, a laicização de um país é extremamente importante.

Preocupar-se com crenças em uma legislação ou em qualquer outro âmbito público é uma imbecilidade. Deve-se ter um compromisso com a verdade.

Quando algo é comprovado e um indivíduo não aceita, clamando que não acredita, que acredita em outra coisa, isso é dominação, subordinação ideológica. Ideologia não é opção política; ideologia é uma justificativa para um dado estado de dominação. Para exemplificar o que disse: é já comprovado que a terra tem mais que quatro bilhões de anos de idade. O Velho Testamento, entretanto, dá ao planeta pouco menos de 5800 anos, a suposta data da criação, e há pessoas que acreditam nisso, embora provadas erradas. Isso é a verdade individual, a dominação ideológica, falta de compromisso com a verdade.

Cada um acredita no que quiser? Claro. Mas que não se use isso como arma política e nem que se considere no exercício da política em si, da educação e, como eu disse, das outras atividades e resoluções públicas. Não se pode esconder a verdade em função da crença, doa o que doer.

Análise a respeito de "Viagens na minha terra", de Almeida Garrett

Almeida Garrett, o autor, é um rousseauniano de primeira classe. Teísta, defensor do bom selvagem, idealista e gênio, grande intelectual da esquerda burguesa. Ao contrário do que pensam os incultos, em boa parte (esmagadora maioria) negação do meu aprendizado marxista e materialista. Não que isso o desmereça - nem de longe -, é na verdade um elogio, considerando a data do livro (1843). É um autor muito engraçado, que ao que parece costuma caçoar dos intelectuais e moralistas de sua época, do romantismo e da sociedade. Quero citar um trecho do texto, tendo em mente o significado das palavras conforme a visão do autor - note-se que "materialismo", ao contrário da utilização "filosófica" da palavra, se refere, como utilizada hoje pela maioria das pessoas, ao valor excessivo dado à propriedade privada e ao lucro:

"
Vou desapontar o leitor benévolo; vou perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros capítulos desta interessante viagem.
Pois que se esperava ele de mim agora, de mim que ousei declarar-me escritor nessas eras de romantismo, século das fortes sensações, das descrições a traços largos e incisivos, que se entalham na alma e entram com sangue no coração?
No fim do capítulo precedente, paramos à porta de uma estalagem. Que estalagem deve ser esta, hoje, no ano de 1843, às barbas de Vítor Hugo, com o doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os Mistérios de Paris nas mãos de todo o mundo?
Há paladar que suporte hoje a clássica posada do Cervantes, com o seu mesonero gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisível rei do século, aquele por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e aferem o justo! Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da época.

Eu coroarei de trevo a minha espada,
De cenouras, luzerna e beterraba
Para cantar Harmódios e Aristógitons
Que do tirano jugo vos livraram
Da ciência velha, inútil, carunchosa,
Que elevava da terra, erguia, alçava
O que no homem há de Ser divino,
E para os grandes feitos e virtudes
Lhe despegava o espírito da carne...

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra; macadamizai estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Ícaro para andar, a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro - seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo, a nação mais feliz não é a mais rica. Logo, o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...

There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your phylosophy

A ciência deste século é uma grandíssima tola.
E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos néscios.

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Vamos à descrição da estalagem. Não pode ser clássica; assoviam-lhe todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem literatura cava e funda desde a porta do Marrare até o café de Moscou.
Mas aqui é que me aparece uma incoerência inexplicável. A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de fato; Quixote, rei de direito.
Pois é assim, e explica-se. - É a literatura que é uma hipócrita; tem religião nos versos, caridade nos romances, fé nos artigos de jornal - como os que dão esmolas para pôr no diário; que amparam órfãs na Gazeta, e sustentam viúvas nos cartazes do teatro.
E falam no Evangelho! Deve ser por escárnio. Se o leem, hão de ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
Vamos à descrição da estalagem; e acabemos com tanta digressão."


Daí se pode perceber seu rousseaunianismo. Sua crítica ao progresso como um todo, sua exaltação da vida naturalística e seu idealismo teísta. Numa análise minha, aprendiz de marxista, a literatura enquanto incoerente com a realidade social nada mais é que fruto da moral capitalista e do idealismo, da degradação e da tentativa de fuga da realidade. A crítica à mera hipocrisia é fragmentária, pois não percebe e não mostra o contexto material que leva a ela. E simplesmente critica alguém por não seguir o que discursa, não critica o discurso em si. Daí podemos explorar o ponto de vista burguês das causas dos problemas sociais - há muitos que dizem que a realidade imbecil e pobre em que vivemos é fruto do individualismo e da má qualidade da educação, e não o contrário. Isso é a inversão sujeito-predicado idealista e racionalista, que coloca a razão como anterior à matéria, ou seja, a matéria existe porque ela é pensada (em um resumo idiota meu). Na visão materialista, oposta à do autor e à da intelectualidade burguesa, a razão é posterior à matéria, ou seja, o pensamento existe em função da existência da matéria, e não o contrário; ou seja, a má qualidade da educação e o individualismo são frutos da realidade pobre e imbecil, e não o contrário; ou seja, o indivíduo é formado a partir do contexto material e social, e não o contrário. O contrário é a visão idealista e hegeliana, da sociedade formada a partir do indivíduo, da revolução de caráter individual, da do "cada um faz a sua parte", da pequena burguesia.
No fim das contas, além de elogiar o autor, eu queria aproveitar esse trecho do livro para fazer crítica aos pseudointelectuais burgueses, que não enxergam as implicações dos próprios pensamentos. Ora, se a razão precede a matéria, seria o capitalismo, como o autor descreve fragmentadamente, a expressão da razão humana? Os conflitos humanos seriam, então, de natureza, e não formados pelo contexto. Então existe a necessidade do Estado enquanto algodão entre os cristais, como disse Hegel. Essa hipótese é facilmente refutada pela verificação do caráter histórico da razão e dos conflitos. Mas não é essa a minha ideia. Há muita gente que se diz ateia e defende o ponto de vista da formação da sociedade a partir do indivíduo e do que falei logo antes como exemplo, da realidade imbecil e pobre enquanto consequência da má qualidade da educação e da individualidade. Isso é burrice e implica em auto-contradição. Como eu disse, isso é assumir a anterioridade da razão à matéria e do indivíduo e sua razão ao contexto material e social. Isso só pode ser idealista, e como tal, admite a matéria como fruto da razão e o teísmo, a existência de uma origem, e se não estou sendo "burro", da causa e do efeito como explicação da realidade.
Há de se ressaltar outro ponto no pensamento do autor, que em maior (muito maior) inteligência é análogo ao da esquerda hodierna. Esse ponto é aquele da crítica e raiva dos ricos sem considerar a estrutura econômica - de novo. Aquele velho discurso de exaltar a pobreza e condenar a riqueza, acético judaico-cristão, sem entender que tudo isso é parte do sistema e que a pobreza é um problema, e não uma beleza. Também não é entendido que a luta de classes não é pessoal, e que o rico não merece a raiva por ser rico - isso é parte da estrutura do capitalismo. A estrutura é que é o problema. Crítica parcial e imbecil, claro. Confusão da luta de classes com luta entre bem e mal.


De qualquer maneira, achei o livro muito interessante e em muitas partes divertido. Acho que será um grande aprendizado sobre história, linguagem e como fazer críticas cômicas.

Pequena conclusão sobre um trabalho simples a respeito de Immanuel Kant

"Experiência sem teoria é cega, mas teoria sem experiência é meramente jogo intelectual" (Kant). Num trabalho de grupo sobre o filósofo, nessa semana, vi nele algumas contribuições importantíssimas para o pensamento crítico e a ciência (como deveria ser) em geral. Em poucas palavras, dizia ele que o conhecimento passa primeiro pela intuição empírica, ou experiência (ou mesmo a intuição pura, consciência, lembrança, sobre a experiência), e então pela razão. Pode-se, a partir daí, gerar apenas um juízo analítico, que é a mera constatação, onde o predicado pertence ao sujeito, ou seja, a conclusão é inerente ao objeto que se observa - cal é um pó branco - ou ainda um juízo sintético, que envolve, aí sim, a razão, a abstração, o entendimento. O juízo sintético seria aquele em que o predicado (conclusão) não pertence ao sujeito (objeto de análise), ou seja, em que se agrega conhecimento, ao exemplo de uma lei da física expressa sob a forma de equação. Ele dizia que cabia à ciência o papel da elaboração de juízos sintéticos aos moldes da frase citada no começo desse texto. Em outras palavras, deve-se partir do empírico para o racional, do material para o intelectual. Aos moralistas de plantão, note-se que essa frase se refere à construção de conhecimento e não à coerência pessoal. Mas, em suma, o que vi da contribuição de Kant para a posteridade pode ser colocado em dois tópicos:

- À ciência cabe a construção de conhecimento pela elaboração de juízos sintéticos partindo do empírico (experiência) para o teórico (razão), ou seja, buscando a verdade da existência empírica;

- A metafísica não pode ser considerada conhecimento e jamais chegará a uma verdade, pois falta a ela a experiência ou a questão empírica - ela só tem conceitos puramente racionais, como Deus ou a Alma - e, sendo assim, buscar conhecimento por ela seria das duas coisas uma: ou partir do racional para o empírico, ou seja, buscar a existência empírica de uma verdade (inversão do processo de construção do conhecimento), ou manter-se no puro racional, como foi dito.

Sobre métodos da estatística

Uma publicação apolítica:

A estatística tem se tornado algo vulgar e mal colocado, pelo menos no que percebo. Nas pesquisas que a envolvem, é muito comum que haja alguns erros lógicos ou metodológicos enormes: tornar o contexto universal, inventar relações de causa e efeito, tomar dados como conclusão, tomar o "ponto" como representação da "curva". O primeiro é muito simples de se perceber e acontece muito na ciência - que tem sido superfície e semelhança, quando se pega duas estatísticas contemporâneas (feitas no mesmo espaço de tempo) que têm resultados diferentes, ou ainda quando se observa as metodologias de determinadas "pesquisas": muitas vezes tiradas em determinados locais específicos, ou seja, sujeitas a classes sociais, culturas, políticas, ambientes diferentes, publicações por toda parte assumem que têm conclusões gerais quando na verdade estão tomando o contexto como universal - acontece muito em pesquisas eleitorais, por exemplo (resultados diferentes para a mesma coisa são provavelmente diferentes contextos). A segunda talvez seja a mais imbecil de todas, que é a que se vê demais em páginas da internet dedicadas a curiosidades, revistas como a Superinteressante e outras coisas de que desgosto bastante. Consiste em pegar duas estatísticas diferentes, relacioná-las e colocar uma como causa da outra sem analisar ou comprovar essa relação. Um exemplo tosco seria questionar as pessoas que vivem por mais tempo sobre seu consumo de sorvete, e pegar o sabor preferido entre elas e relacionar isso com a vida longa - sorvete de abacaxi aumenta o período de vida! Com a terceira, quero dizer que muitas vezes, com determinados dados numéricos, se tira conclusões. Na minha visão, pelo menos, a estatística é instrumento, meio, e não fim ou conclusão. Por último, é um erro tomar o particular como representação do todo, ou o ponto como representação da curva. Exemplifico: se, num determinado tipo operação médica, 90% dos pacientes morrem, não significa que numa operação específica o paciente tenha 90% de chance de morrer. Essa é uma estatística de quantos morrem e sobrevivem em contextos diferentes e posterior às operações. Numa operação específica, se tem inúmeras variáveis, como qualidade do serviço, saúde do paciente, tempo, materiais, etc. Um paciente sujeito a ponte de safena numa vila do Acre não tem a mesma perspectiva de sobrevivência que um paciente sujeito a ponte de safena num hospital de luxo. Então, ou o paciente morre ou não morre, depois é que se inclui ele nos 90% ou nos 10%.

Devo essas percepções minhas a uma conversa com o Guilherme Costa Silva e a última aprendi com o Paulo De Tarso Presgrave Leite Soares - obrigado.